top of page

Última Parada

O ônibus seguia seu trajeto como em qualquer outra madrugada. O som da chuva junto ao asfalto irregular fazia o veículo trepidar quase de maneira terapêutica, além do próprio silêncio raro de seu interior.

 

Daniel cochilava com a cabeça encostada na janela após um cansativo expediente. As luzes da cidade atravessavam a monotonia e escorriam no vidro como espectros coloridos, mesclando-se com seus arredores e encontrando um caminho através de sua pálpebra. Quando abriu os olhos — lenta e vagarosamente —, percebeu que o veículo estava quase vazio. Estranhamente vazio. Olhou ao redor, confuso. Não reconhecia rua, placa ou mesmo um prédio familiar.

 

— Motô — chamou ele, levantando-se —, acho que perdi meu ponto... Onde a gente tá?

 

Sua voz transparecia cansaço, então não se surpreendeu quando não obteve resposta. Tentou novamente, dessa vez com um tom mais impositivo, mas nada. O motorista permanecia olhando fixamente para a frente, mãos imóveis no volante. O ônibus, porém, continuava em movimento, mesmo que não houvesse curvas... Nem semáforos. Quase como se seguisse um caminho reto e eterno.

 

Pela janela, Daniel não enxergava mais nada. Não havia cidade ali, apenas uma paisagem cinza, enevoada, com árvores negras e distorcidas como ossos carbonizados. O asfalto, por sua vez, parecia líquido, pulsando de maneira quase orgânica sob as rodas.

 

Um passageiro atrás dele tossiu.

 

Daniel se virou. Podia jurar que o ônibus estava vazio, mas agora havia outras três pessoas sentadas ao fundo. Todas imóveis, encarando-o. Os rostos, pálidos demais. Os olhos, profundos.

— Onde estamos? — Daniel repetiu, dessa vez com a voz falhando.

Um dos passageiros se levantou. Seu corpo se projetava para a frente, quase como se sua coluna não suportasse o peso de seu próprio corpo. Era uma senhora — ou ao menos parecia —, mas sua fisionomia era magra como Daniel nunca antes observara. Sentia-se quase sem jeito de olhar cada um dos ossos que pareciam se alongar por dentro da pele. Ela se aproximou dele com passos secos, estalando como madeira velha. Parou à frente de Daniel e sussurrou:

Você passou...
— Passei o quê?

O tom em sua voz demonstrava desconforto. Não queria estar ali, não queria conversar com ela, mas ali estava. Paralisado, observou-a levar sua mão à altura de seu rosto. Os dedos, igualmente estranhos, esticavam-se em sua direção como se tivessem vida própria e, num ominoso movimento, percorreram a extensão do maxilar enquanto um estranho sorriso se projetava em seu rosto.

A última parada. A única chance.

O ônibus parou de repente. Não houve barulho de freio; era quase como se eles nunca nem ao menos estivessem em movimento. O rangido das portas abrindo, por outro lado, foi quase um grito. Lá fora, Daniel observava, atônito, um campo escuro e vazio se estendendo por todos os lados. Ao fundo, algo enorme parecia se mexer sob a neblina.

— Você vai ter que descer agora — a voz do motorista era rouca, arrastada... Era estranhamente familiar, quase como se fosse o próprio Daniel.
— Eu não entendo. Eu dormi só um pouco...
Dormir é perigoso — disse a senhora, dessa vez depositando a mão sobre seu ombro direito. — Às vezes, a gente acorda onde não devia.

As luzes internas do ônibus começaram a piscar de maneira errática. Os olhos de Daniel tentavam se adaptar, causando-lhe até mesmo uma certa vertigem que o fez buscar apoio em um dos balaústres. O ambiente parecia se transformar, mas a incômoda frequência da luz não o permitia distinguir nada, até que as luzes finalmente se estabilizaram, ainda que numa intensidade fraca. Era quase como se estivesse de pé num quarto escuro iluminado apenas pelo reflexo da lua.

Por um segundo, pôde ver todos os bancos tomados por figuras idênticas a ele, todas com o mesmo rosto — quase como se alguém registrasse os segundos de agonia extrema que antecedem o seu fim —, mas em diferentes estados de decomposição.

A passageira sorriu de maneira mais intensa à medida que levantava seu braço direito. Daniel, por sua vez, sentia como se seus pulmões já não funcionassem, arfando enquanto se sentia cada vez menor frente àquilo. Num estalar de dedos, então, as luzes se apagaram.

Quando acenderam novamente, o ônibus estava vazio. Exceto por uma figura sentada no último banco, encarando o vazio pela janela. Era Daniel. Ou ao menos o que restou dele — o mero reflexo preso à eternidade entre dois pontos que ninguém mais lembrava.

O ônibus voltou a andar. Seu motor roncava suavemente, como se nunca tivesse parado. E, pela janela, a noite agora observava de volta.

  • bluesky-lp8y5pdi2ob29youg4ycf.png__a=DATAdtAAZAA0
  • Instagram
  • alt.text.label.Twitter

©2022 por Dżejk Obleszczuk

bottom of page