O universo que você ficou
Desde muito novo, algo que sempre me incomodou foi a minha incapacidade de enxergar meus pensamentos. Lembro-me de algumas atividades nas quais as professoras pediam que fechássemos os olhos e imaginássemos um objeto ou uma situação, mas enquanto a grande maioria podia enxergar imagens vívidas em suas mentes, eu acreditava fielmente que aquilo não passava de uma figura de linguagem ou mesmo de um delírio infantil — o mesmo tipo de quando entregamos um copo d’água para uma criança dizendo haver remédio para tratar uma dor de cabeça e, magicamente, a dor é curada em questão de minutos.
Não é como se eu não soubesse imaginar o que é uma maçã, por exemplo. Com os anos, aprendi a descrevê-la em termos do quão redonda ela pode ser, da tonalidade de vermelho e amarelo que sua casca possui, da textura que ela carrega e até mesmo do doce suco que lhe percorre a garganta após uma mordida crocante de uma fruta plenamente madura. Tudo isso, porém, não passavam de meras aprendizagens adquiridas no decorrer de nossas vidas. Para mim, quando alguém solicita que pense em algo com os olhos fechados, eu imagino apenas em termos de palavras e como esse arranjo específico de letras faz eu me sentir. No fim das contas, eu poderia resumir a minha relação com os “olhos da mente” puramente como um grande corredor repleto de prateleiras com etiquetas discriminando seu conteúdo. Apesar de saber me localizar nesse ambiente, porém, não há sequer um único feixe de luz irrompendo a monotonia lúgubre.
E foi exatamente por isso que eu sabia que você era real…
Eu estava deitado quando aconteceu. Era tarde, mas não o suficiente para ser considerado de madrugada. O quarto tinha aquele silêncio morno de quando a cidade continua viva lá fora, mas tudo ao redor da cama parecia incomodamente suspenso. Senão por alguns indicadores LEDs espalhados, o cômodo estava submerso na escuridão, e eu — à mercê de meus pensamentos — encarava o teto, sem vê-lo de verdade, numa contemplação quase meditativa. Era de costume fazer isso após uma semana difícil, e naquele momento a minha mente pensava em coisas pequenas, mensagens não enviadas e conversas ensaiadas que eu abandonava antes mesmo da primeira palavra.
Então veio a sua imagem. Não como sonho ou pensamento — ela veio inteira.
Como um observador para além daquela situação, imediatamente eu me vi num dos últimos bancos de um ônibus escolar. Apoiava a testa no assento reclinado em minha frente, mas eu não pude identificar o que a feição em meu rosto representava. Ao mesmo tempo que eu parecia irritado ou com dor, havia em meu olhar um certo desconforto envergonhado — como quem se segura para não deixar transparecer mais do que deveria. O ônibus tremia numa estrada que eu não lembrava de ter percorrido, e a janela ao meu lado refletia faixas verdes e douradas rápidas o suficiente para borrar a paisagem ao fundo. Havia vozes ao redor — risadas infantis ressoando pelo corredor —, embalagens de salgadinho sendo abertas, o aroma típico de tecido velho, lanche frio e desodorante barato.
E você estava ali.
Deitado no banco reclinado em minha frente, atravessado de qualquer jeito, com uma perna dobrada e a outra quase no corredor. Seu cabelo estava perfeitamente alinhado, a boca prendendo um sorriso, os olhos virados em minha direção com aquela expressão absurda — aquela mesma de quem tinha acabado de aprontar alguma coisa e estava apenas aguardando que alguém percebesse. Eu conhecia aquela cara, mas ela era diferente. Havia uma certa cumplicidade que atravessava os limites da amizade que eu me recordava. Neste mundo — no que eu fiquei —, nós tínhamos estudado juntos, dividido corredores, trabalhos em grupo e silêncios compridos demais, mas a vida havia nos separado com a delicadeza cruel das coisas que parecem naturais.
Mas, naquele ônibus, eu sabia exatamente o que ela significava.
Você tinha feito algo — isso era óbvio —, talvez roubado o boné de alguém, escondido a mochila de alguma garota ou mesmo dito uma piada baixa demais para que a professora não pudesse lhe repreender. Eu não fazia ideia do que era, mas sentia a culpa no ar. Observava em seu comportamento o orgulho mal disfarçado. Sabia que, se eu levantasse a cabeça e perguntasse “O que você fez?”, a sua risada surgiria antes da resposta — uma risada rápida, intensa e quase sem voz: um escárnio às normas sociais.
Era muito estranho eu saber o tom exato de sua risada…
A imagem durou poucos segundos e então se dissipou. O teto voltou e, com ele, o quarto escuro me encobriu num abraço frio. Senti novamente o meu corpo estoporar sobre o colchão. Fiquei imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar alguma coisa que ainda pairasse no ar. Meu coração palpitava rapidamente, mas não de susto. Era outra coisa. Uma saudade sem objeto, um luto por algo que nunca tinha acontecido.
Peguei o celular e voltei alguns meses em nossa conversa.
Nada.
A última mensagem era antiga demais para justificar qualquer mínima esperança. Uma troca boba, quase burocrática, dessas que não deixam cicatrizes porque nunca chegam a tocar a pele. Ainda assim, eu li e reli como se uma frase escondida pudesse se revelar entre as letras soltas daquela tela, mas não havia nenhum sinal que explicasse. A grande questão é que, agora, eu havia estado com você em um ônibus e sabia que isso era impossível.
Nos dias que se sucederam, tentei racionalizar aquele momento. Talvez eu tenha cochilado, quem sabe até mesmo fosse uma memória falsa — montada com pedaços de filmes, fotos, desejos e a solidão de quem busca desesperadamente um abraço amigo. Ou mesmo a minha mente, cansada de viver sem imagens, tivesse decidido me oferecer uma única cena como compensação: um mero vislumbre do que poderia ter sido.
O grande problema é que eu não tinha imagens. Não assim. Eu conseguia lembrar que alguém usava uma camisa azul em um certo evento, mas não via o azul; podia dizer que uma sala era grande, mas não habitá-la ou mesmo reconhecer um rosto diante de mim, mas, assim que ele saía, restava-me apenas um arquivo sem fotografia. Um nome na escuridão.
Aquela cena não tinha a textura de um desejo, mas de um lugar. E, quando ela voltou, entendi imediatamente que alguns lugares também podem nos procurar.
Eu estava no metrô quando a segunda memória apareceu. Apoiando-me na barra gélida de metal e espremido entre um homem de mochila e uma senhora com sacolas de mercado, o vagão mergulhou num túnel com seu ruído de ferro e vento. As luzes piscaram uma vez e eu não estava mais ali.
Apareci em uma biblioteca. Chovia do lado de fora — uma chuva fina, educada, escorrendo pelos vidros altos do prédio e carregando com ela todo o peso da cidade grande. Eu estava sentado diante de uma mesa de madeira, fingindo estudar. Havia muitos livros abertos em minha frente — mais do que eu jamais utilizaria. Algumas anotações e um copo de café pela metade também estavam visíveis e, à minha frente, você estava sentado.
Não dizia nada, apenas desenhava pequenos quadrados no canto de uma folha, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. De vez em quando, levantava os olhos para mim e sorria sem mostrar os dentes. Estávamos diferentes. Mais velhos, mas ainda éramos criança nos escondendo de quem quer que pudesse nos ouvir.
Naquele universo, já sabíamos ficar em silêncio juntos, e talvez essa foi a parte que mais doeu. Não o toque, não o beijo ou a declaração que não vieram. Nada disso apareceu. O que me atravessou foi a naturalidade — a certeza doméstica de dividir uma mesa sem precisar justificar a presença. Como se você pudesse existir no mesmo espaço que eu sem que meu corpo transformasse isso num evento.
Na vida real, eu ficava nervoso só de pensar em mandar uma mensagem, mas, naquela biblioteca, eu empurrei meu caderno em sua direção e o vi escrever algo na margem da folha. Sorrimos quando você me devolveu, mas a neblina mental voltou a tomar a minha percepção e, quando me dei conta, estava novamente naquele vagão e — por alguns segundos — quase perdi a minha estação.
Naquele dia eu passei a anotar tudo. Não porque isso ajudasse, mas porque era a única forma de impedir que as cenas me abandonassem pela segunda vez:
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Ônibus escolar. Banco reclinado. Cara de quem aprontou.
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Biblioteca. Chuva. Quadrados na folha.
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Festa em apartamento. Luz amarela. Você roubando um brigadeiro antes do parabéns.
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Corredor do planetário. Ambos parados diante de uma rocha, rindo de algo que eu não lembrava.
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Calçada de madrugada. Jaqueta emprestada. Sua mão dentro do bolso, encostando na minha sem coragem de ficar.
As memórias vinham sem aviso, sempre quando o mundo falhava um pouco. Luzes piscando, vidros refletindo meu rosto de um jeito estranho, ruídos repetitivos — o instante entre acordar e lembrar quem eu era.
Às vezes durava alguns segundos. Às vezes, quase um minuto. Nunca obedeciam a uma ordem. Eu recebia fragmentos de vidas espalhadas, como páginas arrancadas de livros diferentes — todas com os mesmos personagens e finais ligeiramente deslocados. Em algumas dessas vidas, éramos amigos; em outras, parecíamos algo mais.
Em uma delas, você me chamava por um apelido que ninguém neste mundo usava. Quando despertei da cena, ainda sentia a palavra em minha boca — tão íntima que tive vergonha de pronunciá-la ao léu. Então eu comecei a buscar por explicações.
Digitei coisas ridículas em meu computador: “Memórias de vidas que não vivi”, “Afantasia e alucinações visuais”, “Universos paralelos vazando” ou mesmo “Déjà vu com pessoas desconhecidas”. Li artigos, fóruns, relatos, teorias físicas mal interpretadas, comentários de gente convencida demais, mas nada me servia. Tudo era grande demais ou pequeno demais, ou transformava o que estava acontecendo comigo em doença ou milagre — e eu não queria nenhuma das duas coisas.
Queria saber por que, entre todos os universos possíveis, eu parecia receber apenas aqueles em que você ficava. E a resposta não tardou, vindo de onde ninguém menos espera: de um lugar duvidoso, às três da manhã.
Encontrei um texto antigo de um fórum quase morto numa das últimas páginas do Google. O título era horrível, cheio de maiúsculas e erros gramaticais, mas uma frase me chamou atenção:
“Quando uma linha de realidade colapsa, os diretamente envolvidos esquecem. Os que não conseguem formar imagens mentais podem reter resíduos, porque suas mentes não completam a simulação. Elas só recebem o vazamento bruto.”
Li aquilo muitas vezes. Era absurdo, mas — ainda assim — pela primeira vez, o absurdo tinha o formato exato de minha experiência.
Já havia estudado um pouco sobre memórias falsas. Toda vez que lembramos, inventamos um pouco. Completamos lacunas, corrigimos luz, ajeitamos vozes, colocamos cenários onde antes havia apenas sensação. A mente de outras pessoas — tão boa em criar imagens — corrigia falhas do universo antes que fossem percebidas, mas não a minha mente.
A minha mente não preenchia nada — por isso a sensação tão inquietante —, era uma tela escura. Justamente por isso, quando algo atravessava, eu a via como ela era: uma interferência.
Um resto.
Uma vida que não me pertencia, mas que havia encostado em mim. E então eu comecei a testar, mas não de um jeito científico e metódico. Eu poderia ter montado tabelas, horários, condições de luminosidade e padrões de ocorrência. Talvez isso até me ajudasse a encontrar algum tipo de padrão escondido no universo, mas, no fundo, eu estava fazendo outra coisa.
Eu estava procurando por você.
Não o “você” deste mundo, que aparecia em fotos de amigos, fazia piadas em momentos inapropriados e seguia ocupando, em silêncio, o lugar das coisas que eu nunca aprendi a chamar de passado.
Eu procurava os outros: o da biblioteca, o do ônibus, o da festa…O que, em algum lugar, escolheu ficar.
Comecei a frequentar os ambientes onde as cenas pareciam ter acontecido. Não porque eu acreditasse que abriria um portal para aquela realidade — eu não era tão ingênuo —, mas porque havia uma dor específica em carregar memórias sem endereço.
Talvez por isso a minha primeira parada foi na biblioteca municipal durante um dia chuvoso. Sentei em algumas mesas de madeira, abri livros que não li, desenhei pequenos quadrados no canto das folhas, mas não consegui absolutamente nada.
Na mesma semana, subi em alguns ônibus sem precisar. Sentei-me no fundo e apoiei a testa no banco da frente na esperança que o mundo tremesse no ângulo correto e me levasse de volta para aquele momento, mas eu permaneci aqui.
Andei pelos corredores do planetário em busca de uma resposta. Observei os painéis informativos e me sentei num dos bancos da exposição enquanto respirava o ar que um dia, em algum lugar, fora nosso. Em frente àquela vitrine, encarei com atenção e respeito a rocha mais velha que todos os nossos universos.
E foi ali que eu o vi.
O “você” real estava do outro lado da sala, olhando o celular. Mais uma vez meu corpo teve aquela reação idiota e imediata, como se a realidade fosse uma prova para a qual eu nunca tinha estudado… Mãos frias, estômago leve, garganta estreita.
Você levantou os olhos e, por um segundo, achei que algo fosse acontecer. Que você também lembraria e que alguma versão sua, enterrada sob as camadas desta realidade, reconheceria em mim o banco de ônibus, a chuva na biblioteca e o calor de nossa mão quase dada naquela madrugada.
Mas tudo que você fez foi sorrir de leve… Um sorriso educado. Singelo. Bonito.
— Oi — você disse.
— Oi.
E foi isso.
O cumprimento caiu entre nós como uma moeda num poço fundo demais para ouvirmos sua água. Tudo que eu queria dizer era “Você se lembra!?”. Queria perguntar-lhe se havia um universo em que você desenhava quadrados em minhas anotações e que eu sabia precisamente o olhar que você faz quando apronta algo… Queria lhe dizer que, em algum lugar, eu não precisei te perder. Mas neste mundo não tínhamos intimidade suficiente nem para uma pergunta banal.
Perguntei-lhe sobre a exposição e você me respondeu. Conversamos sobre aquela rocha à nossa frente, sobre a chuva que talvez viesse, sobre como o planetário estava cheio naquele dia e outras banalidades sem perigo. Conversas de duas senhoras com xícaras vazias nas mãos, olhando os netos brincarem na calçada da igreja — como se o mundo não tivesse acabado discretamente entre uma frase e outra.
Ainda assim, enquanto você falava, senti que algo começou a falhar. A luz do corredor começou a piscar.
Uma vez.
Depois outra.
O som ao redor perdeu profundidade e se tornou opaco, como se alguém houvesse mergulhado a realidade em águas turvas. A vitrine diante de nós refletiu não dois corpos, mas muitos. Versões ligeiramente atrasadas de nós mesmos, sobrepostas no vidro até onde nossa visão pudesse alcançar.
Em uma delas, você estava mais perto.
Em outra, eu ria.
Em outra, sua mão tocava em meu braço…
Meu olhar fitou uma em que não estávamos naquele planetário, mas em uma cozinha pequena. Você usava uma camiseta velha, e havia música baixa em um cômodo distante, e — de alguma forma — eu estava certo que era um domingo.
A realidade se abriu como uma fita gasta. Você parou de falar e sua expressão mudou — não muito, só o suficiente para que eu percebesse. Seu olhar se voltou ao vidro e então me encarou com certo recúo.
E então você fez aquela cara. Aquela mesma do ônibus — de quem aprontou algo e estava apenas aguardando a minha reação.
— Você também viu? — meu coração pareceu se atrasar dentro do peito.
Você desviou o olhar e franziu a testa, mas não como quem não entende. Como quem entende demais e tenta fingir que não.
— Vi o quê?
Sua resposta apareceu rápida demais. Defensiva demais. Então eu dei um passo em sua direção.
— O ônibus…
A cor sumiu um pouco mais de seu rosto já pálido. Ao redor, o mundo seguia em frente. As pessoas andavam, as crianças apontavam para fósseis, alguém ria próximo da entrada e um segurança bocejava enquanto olhava o horário em seu relógio. Para todos eles, o universo permanecia firme, mas não para nós. Não ali.
— Eu achei que era sonho — sua voz era reflexiva. Tão baixa que talvez eu pudesse ter inventado.
Encaramo-nos por um tempo em frente aquela rocha. Era estranho perceber que a felicidade — quando impossível — não chega luminosa, mas assustada. Ela chega olhando para os lados e com temor de ser corrigida pelo mundo ao seu redor.
— Você se lembra de quais? — perguntei, aproximando-me um pouco mais de você.
— Algumas — senti que você engoliu seco.
— A biblioteca?
Um assentimento.
— A festa no apartamento?
Outro.
— A calçada?
Dessa vez, você desviou o olhar, mas eu não precisei de uma resposta.
O universo pareceu contrair à medida que a luz da vitrine se estabilizava. Os múltiplos reflexos desapareceram um a um, como pessoas saindo de uma sala antes do fim do filme, e diante daquela rocha — novamente — restamos nós dois. Os verdadeiros. Ou ao menos os que tinham sobrado.
Como de costume, você jogou seu cabelo para trás e devolveu-me o olhar.
— Isso não faz sentido.
— Eu sei.
— A gente mal se conhece mais…
— Eu sei… — foi difícil de concordar. Dolorido.
— Então por que parece que eu sinto sua falta?
A pergunta foi pequena — quase irritada —, como se você estivesse bravo comigo por carregar uma ausência que também era sua. Eu apenas não respondi. Não porque não soubesse, mas porque a resposta era grande demais para caber naquele corredor, entre uma vitrine e um grupo escolar.
Talvez porque, em outros lugares, nós tivéssemos sido felizes. Ou talvez porque a felicidade, quando morre em um universo, apodreça nos outros em forma de saudade… Talvez algumas pessoas sejam eventos fixos, mesmo quando não acontecem.
— Eu tenho medo de estar ficando louco — você respirou fundo.
— Eu também.
— E agora?
Parecia uma pergunta simples, mas não era. Eu poderia dizer que agora poderíamos tentar transformar aquele vazamento em um começo. Que poderíamos tomar um café, conversar, comparar memórias e descobrir quais versões de nós sobreviveram em pedaços. Talvez pudéssemos desafiar o universo com uma mensagem, um encontro e uma escolha.
Mas havia outra possibilidade…
Talvez estivéssemos lembrando porque algo queria ser corrigido. Talvez as memórias não fossem um convite, mas uma despedida de todos aqueles universos que colapsaram justamente porque, neles, nós ficamos juntos.
Olhei para o “Você” que estava diante de mim. Não o do ônibus ou o da biblioteca, mas o que estava nervoso, o real, com medo, vivo. O único que eu poderia tocar sem atravessar uma falha no tecido da realidade.
— Agora — eu disse acanhado — a gente começa do jeito difícil.
Você soltou uma risada curta. Não uma risada de memória — era outra —, mas insegura. Nova. Talvez, por isso mesmo, mais verdadeira.
Saímos do planetário juntos. Lá fora, a tarde tinha ficado cinza. A chuva ameaçava cair, mas o que tínhamos era apenas o vento agressivo de seu anúncio. Caminhamos lado a lado sem encostar as mãos. Havia entre nós uma distância pequena, educada, quase insuportável.
No caminho até a cafeteria, você me contou que a primeira visão tinha surgido semanas antes. No seu caso, não era o ônibus, mas uma cozinha.
— Você estava fazendo bolinho de chuva — sua voz vacilou.
— Eu sei fazer bolinho de chuva?
— Naquela realidade, não.
Eu ri e você sorriu como se reconhecesse a risada e, ao mesmo tempo, a ouvisse pela primeira vez.
Sentamos perto da janela e, por quase duas horas, falamos das vidas que não tínhamos vivido. Descobrimos coincidências e divergências. Em algumas memórias, você lembrou detalhes que eu não tinha. Em outras, eu carregava cenas inteiras das quais você só possuía uma breve sensação. havia universos em que nos conhecíamos cedo, outros em que demorávamos anos. Em um deles, brigamos feio e passamos meses sem nos falar. Em outro, você ia embora para outra cidade, e tinha até mesmo um no qual eu me mudava.
Nem todas as vidas eram felizes e essa descoberta me aliviou mais do que deveria. Até então, eu imaginava que o problema era este mundo. Que, em todos os outros, existia uma versão perfeita de nós — preservada da covardia, do acaso e do tempo. Mas não. Mesmo onde ficávamos juntos, ainda havia dias ruins. Mensagens mal interpretadas. Silêncios. Medos. Pequenas crueldades humanas. Nenhum universo nos poupava de sermos pessoas.
Ainda assim, em muitos deles, nós tentávamos. E talvez fosse isso que vazava. Não o amor, mas a tentativa.
Quando anoiteceu, você ficou encarando o próprio copo vazio. Estávamos em silêncio.
— E se isso passar?
— As memórias?
— Tudo…
Lá fora, a primeira gota de chuva riscou o vidro e levou minha mente ao ônibus, à biblioteca e àquela rocha. Em todos os lugares impossíveis onde eu tinha sido uma pessoa mais corajosa — ou apenas mais sortuda. Pensei na minha mente escura — esse quarto sem imagens que, por alguma falha do universo, tinha se tornado janela.
— Então a gente vai ter que lembrar por conta própria…
Senti um certo recuo no seu olhar, mas também uma leve esperança.
— Você consegue?
Sua pergunta não me parecia cruel. Ela era honesta, e então eu sorri um pouco.
— Não com imagens…
A chuva engrossou lá fora, e eu desviei o olhar para a janela ao nosso lado. Naquele instante, as luzes da cafeteria projetaram nossas formas contra o vidro escuro. Eu não olhava mais para ele diretamente; eu olhava para nós dois, lado a lado, nas sombras que a janela absorvia. Por um segundo, sem o borrão de outras vidas ou as falhas dos outros universos, eu vi apenas um reflexo limpo, onde nossas sombras pareciam se tocar de um jeito que a gente ainda não conseguia aqui fora.
— Mas eu posso escrever — completei.
O silêncio o tomou por alguns segundos. Então você alcançou um guardanapo e uma caneta, desenhando um pequeno quadrado no canto do papel, empurrando para mim em seguida.
— Então escreva.
Naquela noite, quando cheguei em casa, deitei sem acender a luz e esperei. Por hábito, medo ou talvez esperança.
Queria que viesse outra cena. Talvez um quarto antigo, uma viagem, uma manhã em que acordássemos há poucos centímetros um do outro e você fosse a primeira luz que iluminasse a minha manhã. Qualquer prova de que os outros mundo continuavam lá, vibrando atrás deste, como músicas tocando em apartamentos vizinhos.
Mas nada veio.
Apenas o velho escuro. E, pela primeira vez em semanas, minha mente voltou a ser aquilo que sempre tinha sido: um lugar sem imagens, mas — estranhamente — não me senti vazio. Porque sobre a minha estante havia um guardanapo dobrado e, dentro dele, um quadrado desenhado à caneta.
Pequeno e torto… Real.
Refleti durante alguns minutos sobre como eu imaginei que o amor fosse uma coisa que me aconteceria num outro lugar. Em uma linha do tempo mais gentil — como vemos nos filmes de comédia romântica —, numa versão de mim menos assustada e num universo no qual as palavras certas chegassem antes da porta fechar.
Talvez esses lugares existam. Talvez, em algum deles, eu nunca tenha precisado pensar em você como aquele que escapou, mas agora havia este mundo. Este, com sua luz ruim, conversas difíceis, memórias incompletas e sua chuva caindo tarde demais.
Este mundo onde nós mal nos conhecíamos.
Este mundo onde, apesar de tudo, você tinha me pedido para escrever.
Por isso eu escrevo. Não para lembrar dos universos em que fomos felizes, mas para descobrir se, neste aqui, ainda há tempo.