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A cor do mundo

A mariposa pousava no lugar em que sua cor desaparecia. Durante o dia, permanecia imóvel sobre o tronco escuro da árvore diante do prédio — encaixada nas rugas da casca —, asas abertas como uma mancha de fuligem antiga. Não havia escolha nisso, tampouco vergonha ou desejo de beleza. Apenas corpo, instinto e sobrevivência. Ela sabia que, permanecendo ali, quieta, os pássaros passavam. Quando finalmente se confundia com o cinza do mundo, o mundo a deixava continuar.

A cidade que a abraçava também era cinza. A fumaça dos ônibus subia pelas avenidas e se impregnava nas folhas, paredes e nos vidros das janelas. À noite, as lâmpadas acendiam uma a uma, e a mariposa — arrancada do repouso por uma atração mais velha que qualquer pensamento — voava em direção ao brilho. Seu voo não era gracioso. Ela não conseguia cruzar o ar como as borboletas que, durante o dia, pareciam pertencer às flores e aos olhos de quem as admirava. Não, o bater de asas da mariposa funcionava em pequenas correções nervosas, aproximando-se e afastando-se da luz, errando o caminho, voltando, tocando o vidro, recuando e insistindo.

No terceiro andar, havia uma janela que ficava acesa até tarde. 

Atrás dela, um homem se sentava diante de uma mesa. A mariposa o via em fragmentos: a inclinação da cabeça, os dedos parados sobre o teclado, o reflexo azulado de uma tela no rosto, a mão que às vezes subia até a boca e por lá ficava — imóvel —, como se segurasse algo que não ousasse libertar. Havia noites em que ele escrevia muito. Outras, porém, apagava o pouco que externava. Seu movimento era sempre parecido: os dedos avançavam, hesitavam e voltavam. A tela mudava de brilho. Seu rosto se fechava. O corpo recuava alguns centímetros, quase como se a própria frase tivesse empurrado seu peito para trás.

Quando alguém aparecia na tela — uma fotografia, um rosto ou uma conversa aberta — ele desviava os olhos. Não imediatamente. Antes, olhava com uma espécie de fome contida, uma atenção que não se permitia durar. Depois abaixava a cabeça enquanto passava a mão pelo cabelo. Encostava os dedos no queixo, na pele, na boca... Parecia que conferia em si mesmo uma falha imperdoável. Às vezes levantava e caminhava até o espelho preso na parede estreita de seu quarto, permanecendo diante dele por poucos segundos. Apenas o suficiente para endurecer — o suficiente para voltar menor.

 

A mariposa não sabia o que era repugnância. Não entendia o conceito de beleza. Seu mundo era feito apenas de calor, luz, sombra, ameaças e repouso. Ainda assim, havia naquele homem uma maneira constante de evitar a própria aparição. Ele apagava a luz quando passava perto da janela. Mudava o ângulo do rosto ao falar por vídeo, e quase sempre desistia antes. Cobria sua câmera, escolhia roupas escuras — não como quem gosta da noite —, mas como quem espera ser perdoado por não se destacar. Quando ouvia passos no corredor, seu corpo travava; e quando recebia uma mensagem, demorava para abrir. Mesmo quando a lia, demorava para responder, e se por um acaso respondesse, apagava.

 

Do lado de fora de seu quarto, a mariposa continuava seu ciclo. Pousava no tronco, voava até a janela, colidia contra o vidro, caía no parapeito e recomeçava. O vidro não era céu — embora refletisse o escuro; a lâmpada não era lua — embora a chamasse como uma. Havia sempre esse engano: uma claridade inacessível, uma transparência dura, uma promessa que terminava em impacto.

 

Certa noite, o homem ficou mais tempo diante do espelho. A janela estava entreaberta, e a luz do quarto escorria para a árvore como uma faixa pálida. A mariposa, atraída pelo calor interno, entrou.

 

Não houve anúncio, apenas seu pequeno corpo atravessando a abertura, as asas tocando a cortina e o sentimento de que o ar havia mudado de textura. Ela voou em círculos curtos, desordenados, ao redor da lâmpada. Aproximou-se demais, afastou-se, voltou a se aproximar. A luz a puxava com uma força sem linguagem, e então o homem ergueu os olhos para aquela minúscula criatura.

 

Por um instante, os dois ficaram no mesmo quarto: ele, parado diante do espelho; ela, batendo suas asas contra o teto.

 

Ele acompanhou o inseto com o olhar. Não sorriu ou demonstrou nojo. Apenas a observou. Depois pegou um copo sobre a mesa e uma folha de papel, aproximando-se devagar até o momento em que a mariposa pousou na parede branca — um péssimo lugar para desaparecer. Ali, seu corpo era evidente demais: asas pardas, pó delicado, pequenas irregularidades e o tremor quase invisível de suas antenas. Fora do tronco, fora da fuligem e da casca, ela era só uma coisa frágil e deslocada.

 

O homem colocou o copo sobre ela com cuidado.

 

A transparência desceu ao redor do inseto como uma parede súbita. Ela se agitou. Suas asas bateram contra o vidro, uma, duas, muitas vezes, produzindo um ruído seco. Mínimo. O homem deslizou o papel por baixo. Sua mão tremia um pouco, mas não a esmagou, levando-a até a janela.

 

Lá fora, a árvore permanecia escura. A casca aguardava sem interação — sem consolo — apenas adequada. O homem abriu o copo e a mariposa saiu, primeiro tropeçando no ar, depois encontrando o tronco. Pousou de novo no lugar onde sua cor desaparecia.

 

O homem continuou olhando. Não para ela exatamente, mas para o ponto onde ela deixava de ser visível aos olhos desatentos. E então voltou à mesa.

 

A tela ainda estava acesa. Havia uma conversa aberta. Um rosto bonito sorria em uma pequena fotografia circular. O homem olhou para aquilo durante muito tempo, tocando o próprio rosto com os dedos, como fizera antes. Os ombros se fecharam. A mão desceu até o teclado.

 

Ele digitou.

 

Apagou.

 

Digitou de novo.

 

Apagou quase tudo.

 

A mariposa permaneceu imóvel no tronco, confundida com a casca. Nenhum gesto dela tinha significado humano. Nenhuma mensagem foi transmitida e nenhum símbolo atravessou aquela janela. Ainda assim, a cena se repetia em silêncio dos dois lados do vidro: um corpo buscando a luz e recuando do impacto; outro buscando uma voz e recuando de si mesmo.

 

O homem respirou fundo e escreveu um pouco dessa vez. A frase permaneceu na tela por tempo o suficiente para que deixasse de ser impulso e se tornasse escolha. Ele não a apagou. Levou novamente a mão ao rosto, cobriu os olhos, descobriu-os. O cursor piscava no fim da linha como uma pequena lâmpada nervosa.

 

Então ele enviou. 

 

Nada. 

 

A árvore continuou escura. A rua, suja. A fuligem permaneceu sobre as folhas e a mariposa não compreendeu a importância daquele movimento — se é que havia qualquer importância. Apenas sentiu, depois de algum tempo, a luz do quarto diminuir. O homem apagou a lâmpada principal e ficou iluminado apenas pela tela. Seu rosto parecia cansado. Menos contraído, talvez. Ou apenas cansado de outro modo.

 

A resposta veio tarde. A tela brilhou um pouco mais e ele leu, mas não se levantou. Não comemorou. Não foi salvo por aquilo, só permaneceu sentado, imóvel, com a mão pousada sobre a mesa, como quem escuta uma porta que não se fechou completamente. 

 

Do lado de fora, a mariposa abriu e fechou as asas uma única vez. Não por ele. Não para ele. Apenas porque o corpo dela fazia isso antes de mudar de posição. Depois, subiu alguns centímetros pelo tronco e encontrou outra fenda onde podia desaparecer.

 

Nas noites seguintes, o homem continuou evitando o espelho. Continuou demorando para responder. Continuou escolhendo o escuro do quarto quando a rua estava cheia. Havia coisas que não se desfaziam com uma mensagem, assim como o instinto de sua pequena vizinha não se desfazia por ter encontrado o vidro. O corpo aprende seus medos devagar e os repete mesmo quando o perigo já mudou de lugar.

 

Mas algumas vezes, antes de apagar tudo, ele parava. O dedo suspenso sobre a tecla.

 

A janela permanecia aberta, e — lá fora — sobre o tronco enegrecido, a mariposa era quase indistinguível da árvore. Uma mancha entre manchas. Uma vida pequena usando a cor do mundo para continuar em frente. 

 

Dentro do quarto, o homem escrevia uma frase a mais.

©2022 por Dżejk Obłeszczuk

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